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Respiradores: “Somos do bem, só não gostamos de pressão”, disse empresário à servidora

Mensagens trocadas pelo WhatsApp revelam pressão da Veigamed para o pagamento antecipado dos respiradores; reportagem do nd+ teve acesso ao conteúdo da conversa

MARCELO FLEURY, ESPECIAL PARA O ND, FLORIANÓPOLIS

Personagem-chave na aquisição de 200 respiradores por R$ 33 milhões, Fábio Guasti, representante da Veigamed, pressionou a servidora Márcia Regina Geremias Pauli para o pagamento adiantado, insistiu que os equipamentos seriam entregues e demonstrou irritação ao ser cobrado pela devolução do dinheiro, diante do não cumprimento da entrega.

Ex-funcionária exonerada, Márcia Regina Geremias Pauli fala sobre compra de respiradores – Foto: Danilo Duarte/ND

É o que revelam mensagens de WhatsApp do celular da servidora, exonerada da superintendência da Gestão Administrativa da Secretaria de Estado da Saúde após o escândalo. A troca de mensagens entre ela e Guasti é investigada pelo MPSC (Ministério Público de Santa Catarina).PUBLICIDADE  

A investigação do MPSC, desenrolada após reportagem publicada pelo site The Intercept, apontou o uso de empresas fantasmas no processo de compra dos 200 respiradores. O valor exorbitante foi pago com antecedência à Veigamed e apenas 50 dos 200 equipamentos desembarcaram no Estado.

Os aparelhos, porém, continuam retidos pela Receita Federal, no Terminal de Cargas do Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, pois dependem de um documento para serem liberados.

Respiradores no Aeroporto Internacional de Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/ND

Além da investigação no MP, há uma CPI em andamento na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina) e investigações em andamento na Polícia Civil e no TCE (Tribunal de Contas do Estado).

O ND teve acesso ao conteúdo das mensagens trocadas entre o representante da Veigamed e a servidora exonerada.

Confira o conteúdo da conversa:

No dia 22 de março, Fábio Guasti, o representante da Veigamed, se apresenta à servidora Márcia Regina Geremias Pauli, que até então era superintendente da Gestão Administrativa da Secretaria de Estado da Saúde, pelo aplicativo:

“Bom dia, sou Fábio, da MeuVale”.

“Sim”, responde Márcia, demonstrando já saber de quem se tratava.

Os dois falam sobre a aquisição de respiradores e monitores para o enfrentamento da pandemia do coronavírus.

Em 24 de março, Guasti começa a pressionar, em mensagem de áudio:

“Tem que fechar. Se conseguir, tem que fechar. Porque acaba, é impressionante. Tá todo mundo atrás. Hospital particular, tá morrendo um monte de gente já porque não tem respiradores. Estão escolhendo quem vive e quem morre”.

Em 27 de março, o empresário pede o pagamento, em novo áudio:

“Márcia, você precisa mandar para pagamento porque agora já está pronto lá para embarque. A gente vai fazer o pagamento de 50% lá na China e eles vão soltar os respiradores hoje ainda”.

Guasti passa então os dados para depósito da empresa Veigamed.

“Estamos na corrida. Mas já demos todos os encaminhamentos”, diz Márcia.

Em 31 de março, Guasti começa a enviar notas fiscais da Veigamed relativas aos respiradores. Em 1º de abril, o empresário muda o tom e começa a reclamar:

“Márcia, estou com problema para a importação. Eu tô com dificuldade mesmo, eu não tô blefando não, viu? Só que eu tenho 500 respiradores para virem junto com esse lote. Se complicar isso aí, imagina”.

E apela:

“Me ajuda, pelo amor de Deus! Vai lá com essa nota fiscal, entrega pra ele, faz ele fazer o pagamento”, sem explicar quem seria ‘ele’.

Márcia responde que faz parte de um “exército de servidores do quadro de efetivos do Estado que luta para garantir estrutura mínima para enfrentar a crise”.

E acrescenta:

“Somos pessoas trabalhadoras, dignas e retas”.

Em 6 de abril, Guasti diz que os respiradores vão demorar mais uns 15 dias para chegar, mas afirma ter a mão 200 outros modelos que seriam parecidos.  A servidora da Saúde, no entanto, respondem que não servem, por não serem do mesmo padrão.

No dia seguinte, o cenário fica mais tenso. Márcia encaminha a Guasti uma mensagem interna do governo dizendo que a história está muito mal contada e que a Veigamed tem que devolver o dinheiro que o Estado já havia pago.

Guasti responde:

“Márcia, nós estamos há 24 horas com o dinheiro. Quando você faz o câmbio para pagar, demora até duas semanas. Nós vamos fazer em dois dias esse câmbio. Já abrimos a conta e, amanhã, se Deus permitir, até as duas horas da tarde, nós vamos estar com esse negócio pago, tá? Então vou pedir para você paciência. Nós já gastamos muito dinheiro nessa operação para voltar atrás”.

Márcia insiste que Guasti deve devolver o dinheiro para o Estado. O empresário responde, em tom duro:

“Márcia, vocês vão aguardar o prazo, tá, que nós estamos no nosso tempo, vamos buscar as máquinas para vocês. Avisa o secretário que nós fizemos um processo de concorrência, então pede para aguardar que nós vamos trazer os respiradores”.

No dia 10 de abril, Márcia insiste:

“Bom dia, Sr. Precisamos de informações quanto ao nosso processo de
aquisição/devolução do recurso”.

A servidora demonstra aflição e medo de punição pelo processo. No dia 11 de abril, Guasti envia novo áudio tentando tranquilizá-la:

“Seus respiradores estão vindo, fique tranquila. Você não vai ter punição nenhuma. Pode dormir em paz. Você tá lidando com gente do bem, tá?”.

Mudando de tom, o empresário prossegue:

“Nós somos do bem, tá? Só não gosto de ficarem fazendo pressão. Já demonstramos que temos capacidade de entregar. Não somos aqueles mortos de fome daquela empresa que foi aí”.

Passados vários dias, em 23 de abril, Márcia pergunta sobre a previsão de entrega dos respiradores. Guasti responde que no dia 29 saem da China.
Encerram-se as trocas de mensagens.

Em 9 de maio, foi deflagrada a Operação Oxigênio, que revelou a série de irregularidades e erros cometidos durante o processo de aquisição dos respiradores da Veigamed.

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